sábado, 26 de dezembro de 2009

Férias prolongadas!


O Mundo ficará inativo por um período, porque este blogueiro vai tirar as devidas férias! haha

Ótima oportunidade para conferir os posts sobre literatura, que não envelhecem.

Nos vemos por aí!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Jornalismo - 1ª Conferência Nacional de Comunicação (I)

Voltando a dar vida ativa ao blog, a agenda de hoje é a 1ª Conferência Nacional de Comunicação, a Confecom.

Iniciada na segunda, 14, e terminando amanhã, 17, a Confecom é a primeira grande mobilização política que envolve a comunicação na história do país. Mais de 1500 delegados, em vários Grupos de Trabalho, estão trabalhando propostas e definições para o futuro da comunicação.

Do site oficial da Confecom:

"Luiza Erundina destaca o bom nível dos debates

A deputada federal Luiza Erundina, há 10 anos envolvida com as questões da comunicação e delegada do Grupo de Trabalho 8 da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (1ª Confecom), que trata do sistema de outorgas, fiscalização e propriedade das entidades distribuidoras de conteúdo, mostrou-se impressionada com o nível dos debates e o conhecimento do tema entre todos os segmentos envolvidos
".

Deputada Luiza Erundina, na Confecom (Site Oficial).

É saudável notar que a discussão sobre a comunicação não se transformou em algo imaturo, visto que esta é a primeira conferência nacional sobre o assunto. Claro que, lendo principalmente o "Observatório da Imprensa", notam-se inúmeras falhas na logística da Confecom - porém, o debate está aí.

Só para variar, a Folha vem com uma cobertura muito parcial, com a cara lavada, da Confecom. Na notícia "Conferência de comunicação pede transparência em concessões", de Elvira Lobato, o jornal define arbitrariamente o que é favorável ou não às empresas:

"Na agenda do evento estão várias propostas contrárias às empresas de radiodifusão, como o controle social sobre a mídia e a criação de horários gratuitos nas TVs e rádios para os movimentos sindicais e sociais.

A conferência não tem poder para impor mudanças, mas apenas para recomendá-las
".

De qualquer forma, eu quero salientar um ponto fundamental: a ausência das principais lideranças das empresas privadas da Conferência.

Disse o presidente Lula:

"Por isso mesmo, lamento que alguns atores da área da comunicação tenham preferido se ausentar desta Conferência, temendo sabe-se lá o quê. Perderam uma ótima oportunidade para conversar, defender suas ideias, lançar pontes e derrubar muros. Eu, que sou um homem de conversa e de diálogo, volto a dizer: lamento. Mas cada um é dono de suas decisões e sabe onde lhe aperta o calo. Bola pra frente, e vamos tocar nossa Conferência".

É muito claro, salvo a discrição, o porquê de as empresas (além da Bandeirantes e da RedeTV) se ausentarem da Confecom: elas querem fugir da discussão bilateral sobre as concessões de radiodifusão no Brasil, porque de qualquer modo, essa discussão bilateral lhes é prejudicial. O próprio Lula salientou que a Constituição sobre o assunto é muito antiga (o Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962). É fácil notar que a sociedade sofreu alterações profundas desde então - e o campo das comunicações também. Também por isso, deixando de lado qualquer análise crítica da situação, o código legal deve impreterivelmente sofrer alterações.

Lula também tocou no ponto de convergência das mídias: ele afirmou que a Internet cresce dia-a-dia na difusão de informações (multimídia, inclusive), e que é notável uma "horizontalização" (neologismo meu) dessa difusão. Percebe-se isso muito claramente entre as redes sociais e a blogosfera. Lula ainda ressaltou que isso não fere o bom jornalismo, o que de fato é verdade.

Assista o discurso do presidente Lula na abertura da Confecom:





Clique aqui para conferir o discurso completo.

Amanhã, 17, a plenária final da Confecom será concluída. Aguardamos pelas decisões definitivas.

Leia mais sobre a 1ª Confecom:
1ª Conferência Nacional de Comunicação - Site Oficial
Observatório da Imprensa

Uma conferência sob o signo da liberdade de imprensa - Blog do Planalto

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Cem posts depois...




Esse é o post de número 100 do blog O Mundo.

O projeto de um blog era antigo, desde a época do ensino médio o adolescente bobo já queria ter um para escrever qualquer coisa. E ai, veio a faculdade, e com ela, o assunto a se escrever. A ideia inicial do blog sempre foi falar sobre política e literatura, dois campos do conhecimento que eu amo. Porém, com o desenrolar da faculdade de comunicação, outra paixão se enraizou em mim: o jornalismo.

Do dia 15 de janeiro para cá foram quase 100 dias de dedicação ao blog e, principalmente, aos (poucos) leitores. Mas hoje, me sinto satisfeito. Vejo que 100 posts depois, a minha paixão por manter um espaço como este só aumentou.

Aliás, desde que eu comecei a perceber, com o auxílio das aulas de certa disciplina da faculdade, que a imprensa (e consequentemente) o jornalismo do Brasil formavam praticamente um partido político, estabeleci uma meta: criticar esse mau uso do campo, e de certa forma expor às pessoas os descasos e mentiras que transpassam tudo isso no país. A blogosfera, nos últimos anos, se transformou num espaço imenso e inédito: um espaço de crítica à mídia, algo que praticamente nunca ocorreu no Brasil (salvo jornais inesquecíveis, como O Pasquim, que fazia um trabalho mais ou menos nesse sentido).

Por isso, eu afirmo: a leitura plural da crítica da mídia é tão (ou mais) relevante quanto a leitura da mídia tradicional. Ler, ouvir ou assistir os jornais tradicionais é, e sempre foi, importante, sim. Entretanto, no cenário atual, torna-se indispensável a leitura desses jornais por um viés crítico: eles constituem uma rede de empresas privadas dotadas de interesses próprios - é nesse contexto que a crítica da mídia se insere como fundamental nas relações entre audiência e meios de comunicação. Para entender, avaliar, de fato, se informar sobre os assuntos.

A imensa possibilidade de informações que a Internet disponibiliza fortalece uma noção que os estudos em comunicação da escola funcionalista dos EUA pregam desde os anos 1940: a disfunção narcotizante. Os sociólogos Paul Lazarsfeld e Robert Merton defendiam em seus estudos que a exposição à informação poderia causar uma situação "narcotizante" aos receptores dessa informação, ou seja, a ideia de que estar bem informado é possuir qualquer papel social.

Se esta noção está certa, no que eu acredito, atualmente um passo fundamental para derrubá-la é a leitura diária da crítica da mídia.

100 posts depois, eu falo: ao mesmo tempo em que o leitor abre os sites do UOL, da Globo, do Estado de São Paulo, abra os de crítica. A sua leitura acerca da mídia e das relações sociais do Brasil ampliará de uma maneira fenomenal. Se eu conseguir atingir uma pessoa que seja com esta mensagem, terei a certeza de que este blog cumpriu seu objetivo, e de que eu cumpri meu propósito.

Segue alguns links de blogs e sites de crítica à mídia:
Brasília, Eu Vi - Leandro Fortes
Conversa Afiada - Paulo Henrique Amorim
Fernando Molica
Blog do Luis Nassif
Observatório da Imprensa
Vi o Mundo - Luiz Carlos Azenha
e outros, muitos outros por aí afora.

No mais, muito obrigado pelas visitas e pelos comentários! O apoio de todos é sempre muito bom para mim.

O Mundo continua, sempre com ambições cada vez maiores.

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100 posts depois, Drummond nos fala novamente:

Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Política e Jornalismo - O misto sujo do Brasil

O assunto da semana, para mim, mais uma vez, sim, mais uma vez, é o assassinato do jornalismo no Brasil.

Na sexta, 27, a Folha de São Paulo publicou um artigo do senhor Cesar Benjamin, um zé ninguém que participou do movimento estudantil nos anos 1970. Ele foi vice candidato na candidatura apocalíptica de Heloísa Helena em 2006 pelo PSOL, e é editor de livros. No referido artigo, este senhor traça uma melodramática narrativa, quase que literária se seu texto tivesse maior qualidade, expondo seu tempo de preso político na ditadura militar. Relembra de conhecidos, de suas experiências, e de seus dramas.

Cesar Benjamin, à esquerda na foto, com seus amigos Serra, Requião e Dias. Belo dream team, hein?

Depois de alguns parágrafos de uma autobiografia sem sentido, em plena FSP, o senhor Cesar Benjamin transpassa uma acusação direta, inescrupulosa e ressentida para a pessoa de Luis Inácio Lula da Silva. Acompanhe as palavras daquele senhor:

"[Numa reunião, em 1994] Lula puxou conversa: 'Você esteve preso, não é Cesinha?' 'Estive.' 'Quanto tempo?' 'Alguns anos...', desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: 'Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta'.
Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de 'menino do MEP', em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do 'menino', que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o "menino do MEP'
..."

Qualquer comentário meu será desprovido de razão, ética, ou qualquer outro campo lúcido da elaboração textual. Vou deixar Luis Nassif responder às vis palavras:

"Quando a acusação é gravíssima e atinge o presidente da República – seja ele Sarney, Itamar, FHC ou Lula – o cuidado deve ser triplicado, porque aí não se trata apenas da pessoa, mas da instituição. Qualquer acusação grave contra um presidente repercute internacionalmente, afeta a imagem do país como um todo. Se for verdadeira, pau na máquina. Se for falsa, não há o que conserte os estragos produzidos pela falsificação.

[...]

A acusação é inverossímil. Na sexta conversei com o delegado Armando Panichi Filho, um dos dois incumbidos de vigiar Lula na cadeia. Ele foi taxativo: não só não aconteceu como seria impossível que tivesse acontecido.

Lula estava na cela com duas ou três presos. A cela ficava em um corredor, com as demais celas. O que acontecesse em uma era facilmente percebida nas outras.

Havia plantão de carcereiros 24 horas por dia. E jornalistas acompanhando diariamente a prisão.


[...]

Benjamin não diz que Lula cometeu o ato. Diz que ouviu o relato de Lula em 1994, em um encontro que manteve em Brasília com um marqueteiro americano, contratado pela campanha, mais o publicitário Paulo de Tarso Santos e outras testemunhas.

Conversei com Paulo de Tarso – que já fez campanha para FHC, Lula – que lembra do episódio do americano mas nega que qualquer assunto semelhante tivesse sido ventilado, mesmo a título de piada. E nem se recorda da presença de Benjamin no almoço
".

A Folha atingiu todos os limites éticos e morais da profissão. Jogou no lixo sua história de pluralidade (como há tempos vinha fazendo). Assassinou, de dentro para fora, o jornalismo brasileiro. Tudo isso em nome do que? Ódio? Vontade de controlar o país? O quê?

Leia mais sobre este desastre para o jornalismo:

Perdoem-me, leitores, o lugar-comum do texto retórico. Mas é incrível perceber, aos poucos, que a imprensa praticada no Brasil é tão vil quanto a política da terra brazilis.

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O PFL, digo, DEM, da direita reacionária do sudeste fez cair sua máscara. Será que a Veja vai dar capa pra isso? Duvido. (Charge do Duke retirada do Charge Online).

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Economia e Jornalismo - Incentivos fiscais e o assassinato do jornalismo

Manchete do Estadão de hoje:

"
Estados e municípios arcam com corte de IPI
Mais da metade do IPI de móveis e materiais de construção, desonerados ontem, sairia de cofres estaduais e municipais

Adriana Fernandes, Renata Veríssimo e Marcelo Rehder, BRASÍLIA e SÃO PAULO

Numa operação de comunicação e oportunidade política, que aproveitou a presença de 31empresários em Brasília para a reunião do Grupo de Acompanhamento da Competitividade (GAC), o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou ontem novo pacote de incentivos fiscais. Os setores beneficiados desta vez foram a indústria de móveis e, mais uma vez, a construção civil. As medidas foram anunciadas um dia depois de o ministro apresentar o "IPI verde" para carros
".

Advinhem: é mentira. Para não usar uma palavra tão forte, é uma bela de uma falácia. Parte da arrecadação do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) vai, de fato, para Estados e municípios. Porém, todos sabemos que o IPI não é o único imposto que incide sobre estes produtos: entre outros tributos, o
Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) talvez seja o mais significativo. E ele é destinado integralmente a Estados e municípios. Talvez o analista de economia do Estadão tenha relevado a análise político-econômica para apenas atacar, de alguma forma, o incentivo fiscal do Governo. A partir de uma dedução simples, é possível perceber que a redução do IPI gera um aquecimento na economia - por tabela, a arrecadação com ICMS também sobe (pesquisando um pouco na Internet, é possível encontrar analistas falando que esta arrecadação inclusive supera a "perda" com o IPI).

Engraçado é notar que os mesmos que agoram criticam os incentivos - mesmo que cegamente - são aqueles que reclamam inces- santemente da grande carga tributária do país.

O que se vê, falando de jornalismo, é a perda de qualquer limite entre a definição conceitual da profissão - desprendida da arte e da política -, e a prática realizada no país. Absurdamente lamentável, afinal.

O blog do Nassif ainda nos leva a outro flagrante deste assassínio do jornalismo, ao reproduzir um trecho do comentário da "jornalista" Miriam Leitão para o Jornal da CBN:

"Miriam - Segundo, tem que ter critério (…) ele deu ontem para móveis….moveis usam madeira; madeira tem, como, como todo mundo sabe…é…é…é…o setor pressiona o desmatamento, né? Têm empresas boas, que fazem isso de forma sustentável, etc".

A capacidade de análise da Miriam é proporcional a sua beleza.

É incrível a semelhança entre este comentário e o da Lúcia Hippolito, na semana passada, dizendo que a redução do IPI da linha branca causou o "apagão" daquele dia. O que a Miriam quis dizer é que a produção de móveis induz desmatamento - e que o Governo erra em incentivar a compra de mobília.

Leia sobre Lucia Hippolito e sobre o "apagão:
O Mundo - Política - Apagão?

O que eu vou dizer? Não sei, só sei que eu fico completamente abismado em noticiar tamanha falta de respeito com a profissão que eu estou aprendendo a amar.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Política - Diplomacia eficiente. E comum.


"Ahmadinejad é recebido com protestos no Itamaraty
Dois grupos, um a favor e outro contra a visita, aguardavam iraniano, que se encontrou com Lula

Leonencio Nossa e Tânia Monteiro, da Agência Estado

BRASÍLIA - O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, chegou por volta do meio-dia desta segunda-feira, 23, ao Palácio do Itamaraty, onde foi recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com quase uma hora de atraso, Ahmadinejad utilizou a entrada principal do prédio, onde estava sendo aguardado por dois grupos distintos de manifestantes. Um contra a visita do presidente iraniano e outro a favor".

Pois bem. Esse é o tipo de assunto que gera divisões em várias discussões e posicionamentos.

O lado que se coloca contra a visita, ou contra a hospedagem, do presidente iraniano no Brasil o ataca por negar o holocausto, estruturar um projeto nuclear obscuro e ter sido eleito por uma eleição fraudulenta. Este lado, liderado por José Serra e seus tucanos, coloca a discussão política com análise em segundo plano para, como de costume, atacar o presidente Lula por qualquer meio. Além disso, Serra conta com uma admiração considerável da comunidade judaica brasileira - nada melhor, então, que negar relações (de qualquer espécie) com o Irã e agradar a todos. Mesmo que isto custe uma análise e um debate político mais requintado.

Nem herói, nem vilão.

Por outro lado, a política de aproximação com o Irã, do governo brasileiro, parece clara: primeiro, por dar a oportunidade ao país confuso do Oriente Médio de um diálogo elaborado - embora o presidente dos EUA tenha se mostrado aberto a isso, no início do mandato, medidas práticas não parecem ter sido adotadas. Se ninguém tentar, é impossível afirmar que o Irã é oposto a este tipo de diplomacia. Com este tipo de diálogo, o Brasil se insere num campo de tentativa de conter o radicalismo iraniano - sem, contudo, qualquer tipo de opressão militar e ainda, o Brasil prossegue com a política externa eficiente de pluralidade. Na área econômica, também é possível vislumbrar melhorias mútuas, tanto na plano energético quanto nas relações comerciais.

Lula e Ahmadinejad, na chegada do presidente iraniano a Brasília. (Eraldo Peres/AP)

A análise do caso é complexa - entretanto, vejo mais vantagens em receber pacificamente o presidente Ahmadinejad do que refutá-lo.

Leia mais sobre a relação entre Brasil e Irã:

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sociedade - O rumo climático

Do Estadão:

"Líderes de países ricos descartam acordo definitivo em Copenhague

Metas obrigatórias de redução de emissões devem ficar só para 2010, em uma próxima conferência

Claudia Trevisan

Líderes políticos da região asiática, dos Estados Unidos e da Europa descartaram ontem a possibilidade de assinar um novo tratado climático internacional em Copenhague, no mês que vem. No linguajar diplomático, fala-se agora em um acordo "politicamente vinculante", em vez de "legalmente vinculante", o que ficaria para uma próxima conferência, em 2010. "

A reportagem continua descrevendo a trama política que se forma: o chamado G2 (EUA e China) das questões climáticas não parecem dispostos a firmar metas definitivas para redução de emissão de gases - portanto, ao que tudo indica, a reunião de Copenhague servirá para discussão e definição de políticas relacionadas ao tema. Não que isso não seja de fundamental relevância, mas é notável que já passou da hora de metas globais serem estabelecidas, com a participação de todas as grandes economias do mundo, sem exceção.

Lula, Obama e Hu Jintao (Presidente da China). Definitivos nos rumos climáticos mundiais. (Darren Staples/Reuters)

Mas isso é de conhecimento geral. Quero comentar outros dois temas relacionados a esse assunto: a capacidade do agendamento dessa questão e relacionado a isso, a pressão da opinião pública.

Primeiro, a abrangência incrível deste tema. Todos querem discuti-lo, e levam em conta sua relevância de primeira ordem. Ele é pauta fixa na grande mídia, e compõe um segmento do jornalismo que cresce a cada dia: o jornalismo ambiental. As campanhas ecológicas dia a dia se desvinculam do rótulo de "eco-chatas" para alçar uma discussão importante na sociedade em geral. Enfim, parece que ultimamente o tema "mudanças climáticas" vem ganhando uma relevância maior do que recebia algum tempo atrás - nada mais justo, afinal.

Em segundo lugar, a opinião pública (tá, há muitas controvérsias aqui, mas este é outro assunto) demonstrada pela mídia caminha no sentido de exercer pressão sobre as autoridades - em detrimento da "camaradagem" supostamente existente entre estas e o setor industrial (principal emissor de gases poluentes). É possível comprovar esta hipótese no seguinte parágrafo (retirado daqui):

"Na última sexta-feira, o governo brasileiro apresentou a proposta "voluntária" que pretende levar a Copenhague. O Brasil afirma que espera reduzir as suas emissões de gases causadores do efeito estufa em entre 36,1% e 38,9% até 2020".

Números são sempre concretos. Desse naipe, então, sensacionais. Má notícia, entretanto, para o setor industrial conservador e os setores reacionários da sociedade, que teimam em superestimar o crescimento econômico em detrimento de discussões sociais tão relevantes quanto esta.

Leia mais sobre mudanças climáticas e aquecimento global:
Observatório da Imprensa - A pressão da opinião pública, por Luciano Martins Costa
O Mundo - Blog Action Day - Obama e Mudanças Climáticas
Estadão.com.br - Todos terão que apresentar números para corte de emissões, diz Lula - BBC Brasil

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Jornalismo - PEC aprovada na CCJ

Da Folha Online:

"CCJ da Câmara aprova proposta que exige diploma para jornalistas

da Agência Câmara
da Folha Online

A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara aprovou nesta quarta-feira a admissibilidade da PEC (proposta de emenda constitucional) do deputado Paulo Pimenta (PT-RS) que restabelece a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista".

Surpreendente, afinal. Está na Folha, ainda, que uma comissão especial será criada para discutir o tema. Mais alguns meses de discussão, antes de chegar no plenário.

Passados quase 5 meses da decisão do STF, as marcas no mercado de trabalho e na academia ainda são fracas, dados à grande proporção do debate que surgiu naquela época. Parece, ao menos, que não mudou muita coisa.

Para ler mais sobre o diploma de jornalismo:
Estadão de Hoje - Entidade apoia término da obrigatoriedade do diploma
O Mundo - Jornalismo - A luta, agora, pela valorização
O Mundo - Jornalismo - Quem sabe?

Em tempo, aguardamos.

Política - Apagão?

Bem, o assunto todos sabemos. Ontem, por volta das 22h15, um blackout atingiu 9 estados do Brasil, além do Distrito Federal e de parte do Paraguai. O ministro das Minas e Energia Edison Lobão afirmou que o problema se deu a problemas atmosféricos em algum ponto das linhas de transmissão da energia da usina hidrelétrica de Itaipu.

O ministro de Minas e Energias, Edison Lobão. (Foto: Agência Brasil)

Advinhem: o PSDB do FHC, representado pelo líder do partido no Senado, Arthur Virgílio, comemorou o acidente.

Do Estadão:

"'Eles criticaram FHC, mas não resolveram', diz líder do PSDB

Clarissa Oliveira

Em Brasília, o líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), não tardou ontem para devolver as críticas que seu partido recebeu do PT na época da crise energética que atingiu o governo Fernando Henrique Cardoso (veja a memória dos grandes apagões e as declarações a respeito do ministro Edison Lobão, na página C3). "No passado, eles não aceitaram as explicações do governo de que havia uma causa climática para o problema. E a verdade é que, depois de todo esse tempo, eles não resolveram o que eles próprios diziam ser o problema", afirmou ontem o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, que jantava com alguns amigos em um restaurante em Brasília quando foi avisado num telefonema sobre a falta de energia em pelo menos 12 Estados, além de parte do Distrito Federal e do Paraguai
".

Como sempre, a crítica dos tucanos é descontrolada, falaciosa, resumindo bem: mentirosa. O apagão do final de 2001 foi um desastre econômico para o país, e foi sim causado por mau planejamento e má administração do setor energético. Os tucanos colocaram duas soluções muito interessantes para o problema: 1) esperar as chuvas em excesso que adiarão nosso problema ou, 2) privatizar tudo que é empresa de energia e jogar nas mãos dos empresários uma necessidade primária pública. Como a primeira solução não apareceu, optou-se pela segunda. Resultado: atualmente, o Brasil tem uma das tarifas de energia elétrica mais caras do mundo.

Quem estava ontem a noite em Curitiba, percebeu que a chuva foi realmente forte. No bairro Juvevê, que eu frequento, hoje era possível perceber várias marcas deixadas pela chuva: toldos destruídos, placas derrubadas, portões danificados. A probabilidade de um acidente na linha elétrica ter acontecido no Paraná é muito grande - e só isso, um acidente. Não foi falta de planejamento, tampouco problemas estratégicos. Foi um acidente. E aí me aparece um líder do Senado falando com um baita sorriso na cara que o "apagão" de ontem é facilmente comparável ao apagão, esse sim de verdade, em 2001.

O jornalismo da CBN/Globo

Segundo informações do Blog do Nassif, a "jornalista" Lucia Hippolito, comentarista de política da rádio CBN, entrou no ar diretamente da sua casa e afirmou veementemente que o problema do blackout ocorreu porque o presidente Lula isentou toda a linha branca do IPI, o que gerou uma sobrecarga, devido ao grande número de aparelhos novos ligados. Além dessa informação jornalística de uma precisão incrível, ela afirmou que a dependência do Brasil em relação aos combustíveis fósseis na matriz energética precisa ser contornada. Ainda bem que os rios que movem as hidrelétricas são feitos de água. Ainda bem também que eu aboli a rádio CBN nacional do meu aparelho de rádio.

Lúcia Hippolito. Medo.

Leia mais sobre o incidente de ontem:
Conversa Afiada - Cuidado com a palavra apagão. Recordar é viver.
Blog do Nassif - As incongruências do jornalismo engajado.
Blog do Nassif - O curto-circuito no sistema.

sábado, 7 de novembro de 2009

Política - A resposta à altura

Todos se lembram que na semana passada, FHC publicou em alguns jornais um artigo ofendendo pessoalmente o presidente da República, o Lula. O último post do blog se refere exatamente a isso. Nesta semana, Lula respondeu, digamos, à altura.

Do Estadão:

"Para Lula, 'ódio' de FHC se deve à 'incompetência'

ANNE WARTH E CAROLINA FREITAS - Agencia Estado

SÃO PAULO - O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, atribuiu as críticas que recebeu do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) na última semana ao "ódio" do tucano em relação a seu governo. "Eu compreendo o ódio que isso causa. Um intelectual ficar assistindo um operário que só tem o 4º ano primário ganhar tudo o que ele imaginava que iria ganhar e não ganhou por incompetência é muito difícil", disse ele, interrompido por palmas e um coro de "Olê Olê Olê Olá Lula" de mais de 800 pessoas que assistiam à abertura do 12º Congresso do PCdoB, no Palácio das Convenções do Anhembi, na zona norte da capital paulista.

O petista revidou também o ataque do compositor Caetano Veloso, que chamou Lula de "analfabeto" em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. "Essa semana foi engraçada. Eu fui chamado de analfabeto, de ditador, por ter indicado a Dilma (Rousseff, ministra da Casa Civil) pelo ''dedaço'' e ganhei o título de estadista do ano", discursou Lula, em referência ao prêmio Chatham House 2009, que recebeu em Londres por seu empenho nas relações internacionais na América Latina".

É, aí fica difícil para o FHC e qualquer outro contestar. As ofensas pessoais que ele desferiu contra o presidente na semana passada apenas afirmam a tese de Lula: ele foi incompetente - pelo menos, menos competente que o atual.

Claro que os dois presidentes deram sua contribuição para o estabelecimento da democracia e da política brasileira - mas deixo aos leitores decidirem, por via das dúvidas, qual deles desempenhou esse papel melhor.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Política - A inveja do bico comprido

Voltando a falar de política no blog, duas coisas me deixaram embasbacado na leitura diária de terça-feira:

Hã?

A primeira, o artigo de Fernando Henrique Cardoso (sim, aquele mesmo) publicado no Estadão no dia primeiro de novembro. Seguem alguns trechos:

"
Para onde vamos?
Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio "talvez" porque alguns estão de tal modo inebriados com "o maior espetáculo da Terra", de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. [...]

Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do "autoritarismo popular" vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. [...]

Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo "Brasil potência". Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU - contra a letra expressa da Constituição - vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. [...]

Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde
".

Clique aqui para ler na íntegra.

Abismal. A inveja que corrói o ex-presidente é inacreditavelmente ridícula. A atenção, também, que a grande mídia dá a ele é igualmente risível. Estou utilizando meu espaço apenas para demonstrar a falta de senso do ridículo que o FHC possui.

Ele é o único presidente eleito do Brasil que não apresenta qualquer tipo de respeito por seu sucessor. Tenta exaustivamente , há 7 anos, desqualificar o sucesso evidente do Governo Lula. Para quê? Se ele desejasse, de verdade, exercer o papel de sociólogo deveria, sim, criticar o atual presidente, mas dentro dos limites da realidade e da ofensa. Porque, lendo esses parágrafos, é fácil perceber que o texto se trata de uma simples ofensa pessoal - nada de sociológico, de construtivo, por assim dizer.

O FHC denomina o Governo Lula como autoritário, golpista. O compara ao autoritarismo militar - esse sim, deixa suas marcas no Brasil até os dias atuais, vide o serviço militar obrigatório. Por que tanta raiva? Por que Lula é ditador, peronista, quer um poder sem limites? Isso tudo é suposição barata de um ex-presidente iludido.

Quanto ao trecho que fala sobre a "bomba atômica". O FHC, no seu governo, assinou um tratado de não-proliferação de produção atômica no Brasil - a "letra expressa" que ele diz. Com isso, matou toda e qualquer pretensão de o Brasil ser uma força nuclear mundial. Lula retoma essa discussão delicada, mas importante, visando o Conselho de Segurança da ONU, fórum de deliberação mais importante do mundo no que se trata de decisões internacionais. Qual o problema aqui FHC? O Brasil não possui o direito de crescer? Sim, caros leitores, em breve o Brasil comporá esse Conselho, e nesse dia FHC derrubará lágrimas e lágrimas da sua raiva (já não tanto) acumulada.

O segundo fator que me assustou, afinal, foram os
comentários deixados no site do Estadão, no artigo do FHC. Por exemplo:

"
ESSE TEXTO É UMA LUZ PARA TODOS QUANTOS SE PREOCUPAM COM NOSSO DESTINO
Ter, 03/11/09 14:09 ,tabula@estadao.com.br

Nesse nosso deserto de lideranças verdadeiras e patriotas, é sempre bem vinda uma luz que nos livre das trevas sinistras. Sempre será uma situação de terrível risco político e econômico a junção de desmoralização institucional generalizada com o poder magnificado dos fundos de pensão gerido pelos sindicalistas da mesma facção criminosa do atual governo. Os riscos de haver um enorme conluio para a implantação de uma ditadura bolivariana são intoleráveis. Talvez essa clara preocupação esteja atrasada no tempo eleitoral que trata de manipular as mentes em larga escala.
"

"
Texto muito difícil...
Ter, 03/11/09 08:58 , guiverhalen@estadao.com.br

Os petistóides, principalmente Vosso Guia vão ter contratar um tradutor para colocar o texto em Lulês. Só assim vão poder responder à altura
".

Este, em especial, me surpreendeu "positivamente":

"
INCOERÊNCIA DE FHC
Dom, 01/11/09 20:37 edevaldoj, edevaldoj@estadao.com.br

45 escândalos que marcaram o governo FHC 1-Conivência com a corrupção, 2-O escândalo do Sivam, 3-A farra do Proer, 6-A emenda da reeleição, 7-Grampos telefônicos, 8-TRT paulista, 9-Os ralos do DNER, 10-O"caladão", 11-Desvalorização do real, 12-O caso Marka/FonteCindam, 13-Base de Alcântara, 14-Biopirataria oficial, 15 - O fiasco dos 500 anos, 16 - Eduardo Jorge, um personagem suspeito 17 - Drible na reforma tributária, 18-Rombo transamazônico na Sudam, 20-Calote no Fundef, 21-Abuso de MPs, 22-Acidentes na Petrobras, 25-Os computadores do FUST, 26-Arapongagem, 27-O esquema do FAT, 28 - Mudanças na CLT, 29 - Obras irregulares, 30-Explosão da dívida, 31-Avanço da dengue, 32–Verbas do BNDES, 33-Crescimento pífio do PIB, 34–Renúncias no Senado, 35 - Racionamento de energia, 36-Assalto ao bolso do consumidor, 37 – Explosão da violência, 38 – A falácia da Reforma agrária, 40–Renda em queda e desemprego em alta, 41 -Relações perigosas, 42–Violação aos direitos humanos, 43–Correção da tabela do IR, 44-Intervenção na Previ, 45–Barbeiragens do Banco Central
".

Embora não concorde com todos estes 45 pontos, a maioria me parece verossímil. De qualquer forma, rende um artigo muito completo sobre o governo daquele senhor.

Quanto aos outros, beiram a imbecilidade. A ignorância. Eu prefiro nem desperdiçar palavras com tais comentários absurdamente preconceituosos.
Leia mais sobre FHC clicando aqui.
Leia também no Conversa Afiada, e no blog do Nassif.

Ufa.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Literatura - "Todos estes que aí estão / Atravancando meu caminho..."

Há algum tempo queria voltar às origens do blog e falar sobre literatura. Mantendo o mesmo padrão de antes, um autor seria escolhido. Mas por vários e vários dias, teimosamente, nenhum me chegou à cabeça. Ironia, para um apaixonado por literatura que mantém um blog.

Porém, hoje, eu relembrei. Quem mereceria um post senão aquele que me consola nos momentos de ócio? Falo isso porque carrego comigo um pequeno livro de bolso todos os dias, aonde quer que eu vá. Falo, afinal, de Mario Quintana.


"Eles passarão / Eu passarinho".

O primeiro soneto de Quintana que despertou meu interesse foi o seguinte:

"A Rua dos Cataventos - XXXV

Quando eu morrer e no frescor de lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixa-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!

Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da Expressão!...

Eu lavarei comigo as madrugadas,
Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...

E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios da vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra do seu negro manto..."


O diferencial de Quintana era a "rara legibilidade". Não são raros os ensaios sobre o autor que versam sobre isso. Amigo de vários outros grande poetas brasileiros contemporâneos a ele, Quintana viveu em Porto Alegre de 1906 a 1994. A cidade, que lhe rendeu o título de Cidadão Honorário, foi, inclusive, palco de inúmeras histórias do poeta:

"Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei..."

Quintana passou toda sua vida entre redações de jornais (ele trabalhou no Estado do Rio Grande, no Correio do Povo, e escreveu crônicas para vários outros) e a literatura. Com dezenas de livros publicados, a obra de Mario Quintana entrou no hall das mais consistentes obras de poesia do Brasil, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Vinícius de Moraes e outros.

Voltando à obra em si, o que eu considero um pico dos poemas de Quintana se encontra na série Espelho Mágico, uma reunião de quadras em que o autor descreve várias situações, inclusive algumas banais. Diz Quintana:

"Das corcundas

As costas de Polichinelo arrasas
Só porque fogem das comuns medidas?
Olha! Quem sabe não serão as asas
De um Anjo, sob as vestes escondidas..."

"Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada...
E terminados desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada."

"Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!"

"Da condição humana

Se variam na casca, idêntico é o miolo,
Julguem-se embora de diversa trama:
Ninguém mais se parece a um verdadeiro tolo
Que o mais sutil dos sábios quando ama."

Leia (sobre) Quintana:
Mario Quintana - Biografias - Releituras.com
Jornal de Poesia - Mario Quintana
Toda a loucura lúcida de Mario Quintana - Estadao.com.br

Leia o que já foi publicado sobre literatura clicando aqui.

Assista a reportagem do JN quando da morte do poeta:



Para finalizar, Quintana:

"O poema

Um poema como um gole dágua bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza."

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Esporte - Para começar bem (?)

Para começar a semana, notícias envolvendo esportes na segunda-feira.


"Segundo balanço preliminar da Urbs, 28 ônibus foram quebrados no clássico
Um dos veículos, atacado depois do jogo, próximo à Arena da Baixada, deu perda total

A URBS (Urbanização de Curitiba S/A) apresentou na manhã desta segunda-feira um balanço preliminar da depredação de ônibus no clássico Atletiba deste domingo. Segundo o órgão municipal, foram 28 veículos danificados, um deles com perda total. O prejuízo estimado é de R$ 6,3 mil. Para fechar o saldo, ainda falta verificar os danos causados a terminais, estações tubo e em algumas linhas de ônibus".

Pois bem. Curitiba ainda vive esta realidade monstruosa que assola os países mundo afora que abrigam o futebol. O problema é que esta realidade é antiga, parece resistir bem ao presente, e não contempla nenhuma mudança para o futuro - e isso, sim, é um baita de um problema.

Ônibus pra quê? Ninguém precisa mesmo.

Primeiro, pela evidente falta de controle da situação por parte da força estatal. Basicamente em todos os jogos - sejam clássicos como o de domingo ou não - há problemas evidentes por toda a cidade. Para afirmar isto, não precisei de uma pesquisa científica: basta andar por Curitiba em dias de jogos para constatar os fatos. De qualquer forma, o problema principal passa a ser a falta de punição - perdoem-me o lugar comum - em relação aos "torcedores". Aplicar técnicas parecidas aos países europeus, especialmente a Inglaterra, não parece algo muito forçoso. O que eu espero é que as próximas gestões da cidade levem esse aspecto como fundamental - tanto para melhorar, de fato, a qualidade de vida na cidade, como para preservar Curitiba para a Copa do Mundo de 2014.


"Liderado por Tom Brady, New England Patriots arrasa Buccaneers em Wembley
Quarterback é o grande nome da vitória da equipe na partida em Londres

O estádio de Wembley abriu suas portas pela terceira vez para uma partida da NFL. E, neste domingo, o show foi todo do New England Patriots, que, impulsionado pelo quarterback Tom Brady, arrasou o Tampa Bay Buccaneers em Londres por 35 a 7. Agora, a equipe do marido da modelo brasileira Gisele Bündchen soma cinco vitórias e duas derrotas na temporada regular".

Embora a notícia ainda traga o vínculo que parece fundamental aqui no Brasil entre Tom Brady e Gisele Bündchen, o fato de uma manchete como esta estampar o site da Gazeta do Povo é positivo para o esporte - e evidencia seu crescimento inegável no país. Fã assumido que sou do esporte americano, fico satisfeito ao constatar esse reconhecimento.

Tom Brady, Quarterback do New England Patriots

Para ler mais sobre futebol americano, clique aqui.
Leia todos os posts que envolvem esportes clicando aqui.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Jornalismo - Retomando a discussão do diploma

Do site JusBrasil:

"PEC sobre diploma para jornalista já pode ser votada

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania pode votar já na próxima quarta-feira (21) a Proposta de Emenda à Constituição 386/09, que restabelece a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista. O parecer do relator, deputado Maurício Rands (PT-PE), pela admissibilidade da PEC, foi lido ontem na comissão, mas um pedido de vista adiou sua votação até a próxima semana".

Clique aqui para ler a notícia completa.

Bem, voltando ao assunto já analisado aqui.

Passados aproximados quatro meses da decisão do STF (da não obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão), as mudanças no mercado editorial brasileiro são leves, quase inexistentes. Digo isso relacionado aos grandes centros de mídia - desconheço a situação do interior do país e de mídia comunitárias.

Por hora, só aguardo o trâmite da PEC - particularmente, torcendo pela aprovação, e de maneira realista, acreditando muito pouco nisto.

Para ler sobre o diploma de jornalismo, clique aqui e clique aqui.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blog Action Day - Obama e Mudanças Climáticas

Chegou o Blog Action Day. Milhares de blogs pelo mundo incluem na pauta de hoje o tema "Mudanças Climáticas". Não é diferente com este.



Relacionando isso ao tema principal do blog, a política, proponho uma reflexão relacionada à premiação do Nobel, realizada semana passada. O presidente dos Estados Unidos Barack Obama venceu o prêmio Nobel da Paz, por "seus esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos". Refletindo o fechamento da prisão de Guantánamo, as tentativas incisivas de aproximação ao Irã, e outras medidas relacionadas, Obama, para muitos, fez por merecer. Para outros, isto tudo foi insuficiente para o presidente levar o Prêmio. Para mim, o estímulo dado ao líder com o recebimento do Nobel é válido - além do que, ele deve limpar toda a sujeira deixada pelo seu antecessor.

Partindo para o lado ambiental, ao longo do ano Obama reafirmou a responsabilidade dos países ricos em executar as mudanças preventivas frente ao fator ambiental. Obama promoveu neste ano, também, algumas reuniões e discussões com países e uniões do mundo, visando atitudes mais concretas. Nos EUA, o Ato de Energia Limpa e Segurança 2009 está em trâmite no Senado Federal, e estabelece uma meta de redução de 17% na emissão de CO2 até 2020. Antes de qualquer contestação, é um passo no caminho certo.

De qualquer forma, eu acredito que as atitudes de Obama, independente de eficientes ou não, derrubam aos poucos a imagem dos EUA de país inconsequente e desenfreado na busca do desenvolvimento. E tudo isso, penso eu, que contribuiu para Obama levar o prêmio Nobel para a Casa Branca.

Para ler mais sobre Obama e meio ambiente:
BBC Brasil - Obama convoca reunião sobre mudanças climáticas
CMQV - Discurso de OBAMA em reunião especial na ONU sobre Aquecimento Global
Planeta Verde - Lei climática é alvo de disputa de interesses nos EUA

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Jornalismo - "Blogueiros discutem os rumos da mídia"

Primeiro, gostaria de me desculpar com os eventuais leitores do O Mundo por ter deixado o blog tanto tempo sem atualizações. A falta de tempo iminente na sociedade me atrapalhou um pouco, mas a falta de agenda também contribuiu para a abstinência de posts. Mas vamos lá, firme e fortes.

Do site da Escola Livre de Jornalismo:

"Blogueiros discutem os rumos da mídia
IESB e Escola Livre de Jornalismo reúnem alguns dos principais nomes da blogosfera brasileira para debater o papel da imprensa no século 21

Cinco dos principais nomes da blogosfera independente brasileira estarão em Brasília, entre os dias 26 e 30 de outubro, para discutir com estudantes de comunicação e profissionais da imprensa o papel das novas mídias. À frente de blogs campeões de audiência, Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna e Marco Weissheimer vão conversar sobre a importância das novas mídias.

Esse time de primeira linha vem promovendo, na internet, um amplo debate sobre a qualidade da informação oferecida pelas mídias tradicionais, servindo como paradigma na mediação entre público e notícia. Os cinco jornalistas foram convidados a falar da internet como alternativa de informação para o público, o novo mundo das redes sociais, a crise da mídia corporativa e o exercício da cidadania online".

Clique aqui para ler o texto completo.

Bem, isso revela algo importante: a blogosfera, tomada ainda por muitos como "sem importância" e sem qualidade suficiente para encarar os jornalões, cada vez mais requer seu espaço no âmbito da mídia nacional. Pouco a pouco, o uso da internet como forma alternativa de interação social informativa cresce e reivindica seu valor.

Provando essa tese, amanhã acontece o Blog Action Day. Evento mundialmente famoso, a iniciativa tem por objetivo fazer com que os blogs pelo mundo falem de um assunto específico, relacionando-o com o tema do blog. O tema principal deste ano é "mudanças climáticas". Esse processo tem como fim pôr na agenda pública discussões relevantes - por meio da blogosfera. O Mundo já está registrado e participará deste evento mundial.


Clique para ampliar.

Para ler mais sobre o Blog Action Day clique aqui para acessar o site oficial em inglês e aqui para o brasileiro.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Sociedade - O Brasil boicotado

Todos sabem o que está acontecendo com o ENEM 2009.

Porém, o post de hoje é baseado no texto da jornalista Renata Cafardo, do seu blog no 'Estado':

"Bastidores do vazamento do Enem por Renata Cafardo Meu telefone fixo tocou por volta das 15h30 de ontem e uma voz tremida do outro lado confirmou meu nome completo e avisou que queria falar sobre o Enem. Já havia recebido mais cedo um recado de alguém estava interessado em vender o gabarito da prova, que seria realizada por 4,1 milhões de alunos no fim de semana".

Há tempos um jornal brasileiro não veiculava um furo. Aquela matéria bombástica, capaz de comover um número considerável de pessoas, e que fundamentalmente tenha relevância no cenário nacional.

O furo que o 'Estado' deu foi sensacional - com a esperança de que ele seja, diferente dos grampos ilusórios da 'Veja', real -. Lendo o texto da jornalista, assinado, no blog, com um bom número de detalhes, acredito nele.

Porém, vamos ao ponto que eu quero chegar nesse texto: o sujeito que "recebeu" (como isso aconteceu, a PF nos dirá em algum tempo, espero) a prova do ENEM age como um perfeito imbecil nesse caso. Tanto por pensar que o método que ele adotou para ganhar dinheiro foi bom, quanto por querer sabotar o Governo, e mais do que isso, a sua própria pátria em favor de dinheiro particular.

Primeiro, o método do "esperto". Qualquer veículo, ou qualquer jornalista, minimamente sério no país veria nesse achado um furo espetacular. Sensacional, capaz de moldar e sustentar uma carreira por toda a vida. Pensando com a sua mente suja, portanto, ele deveria ter procurado um veículo de mídia não-sério. Pense leitor, e você também concluirá que a 'Veja' seria a melhor saída. Ela daria uma capa "bombástica", no final de semana do exame, na contínua investida contra o Governo Federal. Derrubaria-o? Não, mas não serviria de nada a população, causaria constrangimento, barulho, mais nada. Mas tudo bem, por intervenção divina isso não aconteceu.

Segundo, a capacidade do sujeito de conseguir sabotar a pátria. Mais de 4 milhões de pessoas fariam essa prova, tanto alardeada pelo MEC. Pela promessa do Ministério, ela seria reformulada, buscando a aprimoração do ensino no país. Apesar da boa intenção, o sistema errou, é óbvio. De qualquer forma, ela seria aplicada, e pronto.


O ministério, com absoluta certeza, armou um forte esquema de segurança. Procurando pelos diversos sites, o leitor comprova isso. Porém, de alguma forma, a prova vazou e caiu na mão de um verdadeiro imbecil. O sujeito boicotou, esmagou e envergonhou o Brasil. Toda minha torcida está com a PF, para que ela encontre esse indíviduo, e o faça, desculpem o lugar comum, pagar pelos seus atos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Jornalismo - O mesmo cardápio, quarenta anos depois

Reproduzo alguns trechos do brilhante artigo do jornalista Washington Araújo (dono do blog Cidadão do Mundo) sobre o Jornal Nacional:

"O ditador da moda

Aos 40, o Jornal Nacional continua ditando a moda jornalística, sim, porque no Brasil há sempre um modismo evidente ou camuflado, mas moda sempre seguida. A começar pela bancada com traços abertamente futuristas, a verdade é que a do Jornal Nacional é obra de arte, é senso estético à flor dos olhos. Depois temos a indefectível vinheta em frenético movimento com a nervosa musiquinha que de tanto ser vista e ouvida passou a ser símbolo de telejornal da noite, de telejornal da Globo.

Não importa quanto tempo seja campeão de audiência, outra verdade é que o Jornal Nacional consolidou no Brasil – e é seu melhor representante – o jornalismo espetáculo, o jornalismo como show, o jornalismo com cabeça e olhos de cinema. Com apresentadores sempre impecavelmente bem trajados, maquiagem e cabelos à prova de qualquer tsunami e, principalmente, contando com gente talentosa, com dicção muito acima da média, não há como negar que é este o telejornal que melhor personifica o sempre comentado padrão Globo de qualidade televisiva.

O que incomoda é essa estranha capacidade que o JN tem de recriar todo santo dia esse clima de cumplicidade com o telespectador, um clima que favorece esquecer as agruras do dia e postar os olhos, qual hipnotizado, no que está sendo dito por William Bonner ou por Fátima Bernardes. E não importa se a notícia é sobre o recuo de Barack Obama em sua intenção de instalar sistema defensivo antimíssil no Leste Europeu (Polônia, República Checa ou Eslováquia). Convenhamos que não é assunto corriqueiro nessa paragens tropicais. Mesmo assim tudo é consumido de maneira natural e pouco importa se trocamos os mísseis pela cobertura do funeral-espetáculo do astro pop Michael Jackson ou do funeral-parada militar do longevo senador Ted Kennedy.

Em ritmo de videoclipe, a realidade perde seu eixo e já não se sabe o que é realidade filmada do que é realidade fabricada. O show em que o jornalismo se transmuta é tão bem feito, tão bem calculado em milésimos de segundos que após assistir a uma edição do JN pouco, bem pouco, fica retido em nossa memória, pois embarcamos do real para o ilusório em fração de segundos.

[...]

Semana retrasada, tentando salvar meu domingo diante de TV enquanto trocava os canais me deparei com o William Bonner – com sua mulher e filhos – tentando responder ao apresentador Fausto Silva, que o apresentara à amestrada claque, voltando a abusar de sua preferida ladainha louvaminheira – "ninguém é tão ético, é tão profissional, é tão bom caráter, é tão glorioso, é tão gente, é tão querido pelos colegas, é tão generoso na profissão, é tão hiperamigo" – sobre como o casal fazia o Jornal Nacional. A resposta do Bonner foi sintomática: "Primeiro temos que preparar o cardápio" (ou algo assim).

Logo me desliguei do assunto e pensei com meus botões que o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, até que não estava tão equivocado assim ao ter equiparado a profissão de jornalista com a de cozinheiro. É que o JN é feito sob medida, segue uma receita, tem um cardápio a oferecer. E neste cardápio nem sempre assoma o objetivo consciente do jornalista e da empresa de informar o espectador e demonstrar de forma inequívoca sua honestidade para com a veracidade jornalística.

Porque no jornalismo não existe meio termo – ou se conspira ou se denuncia a conspiração."

Para ler o artigo completo, clique aqui.

Bem.
Pegando um gancho no post da semana passada, critiquei o sistema de ensino do jornalismo no Brasil por se dar nos "8 ou 80": ou o estudante cria um ódio mortal pela profissão, passando a criticá-la veementemente, ou assume todas as vergonhas claras dela e assassina o padrão ético de excelência, aparentemente divergente do mercado editorial.

Washington Araújo, por sua vez, confirma essa tese, carregando-a para fora da discussão acadêmica. Bem, saindo do lado técnico...

A crítica do jornalista ao JN é simplesmente verdadeira. O jornalismo dado como show, e já analisado por muitos intelectuais da área, é a receita certa do telejornal brasileiro. O cardápio, já existe, há 40 anos ele foi descoberto e explorado por gente sem compromisso acadêmico ou social. E, como se vê diariamente, ele funciona até hoje.

Porém, está longe de ser perfeito. O padrão técnico é de primeiro nível. Entretanto, o padrão de conteúdo dia a dia se confunde com as 3 ou 4 novelas que o circundam. Contamina-se com a superficialidade da TV, a mercadologia da empresa de comunicação, a sede de ganhos do setor comercial.


No meio desse bolo, montado pelos cozinheiros de sempre, o jornalismo entra no segundo plano. Ele se transformou numa vinheta - aquela ouvida inconfundivelmente anos após anos - e numa logo. O jornalismo apenas cedeu a letra "J" para essa logo, mas logo foi esquecido, menosprezado. O que me resta, é perguntar a mim mesmo se um dia eu verei o jornalismo, nu, só. Espero que o leitor se faça a mesma pergunta de vez em quando.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Jornalismo - Diretrizes Curriculares (I)

Foi apresentada na última sexta feira (18/09) uma proposta de revisão das matrizes curriculares do curso superior de Jornalismo. Elaborada por uma comissão especializada, liderada por José Marques de Melo, a proposta prevê algumas mudanças fundamentais no curso: aumento da carga horária, instituição do estágio obrigatório e separação do Jornalismo da Comunicação Social.

José Marques de Melo, presidente da comissão de especialistas que elaborou a resolução.

Separarei essa questão em alguns posts, para versar sobre as questões que eu achei mais interessantes - e também complexas. A primeira, de hoje, diz respeito a esse parágrafo da resolução:

"[...] o conteúdo profissional do curso passou a ser caracterizado como "meramente técnico" e destituído do interesse teórico. Por outro lado, a teoria da comunicação evoluiu desvinculada do exercício da profissão, focada numa crítica geral da mídia, sem compromisso com o diálogo para uma intervenção prática na mesma. Em decorrência, os estudantes de Jornalismo desde então têm sido forçados a uma opção dramática e pouco razoável entre negar a sua profissão, em nome do "espírito crítico", ou desprezar a teoria estudada nos cursos para se voltarem à prática, reproduzida de maneira acrítica e envergonhada. A ênfase na análise crítica da mídia, quando feita sem compromisso com o aperfeiçoamento da prática profissional, abala a confiança dos estudantes em sua vocação, destrói seus ideais e os substitui pelo cinismo [COHEN, Jeremy et al. Symposium: Journalism and Mass Communication Education at the Crossroads. Journalism and Mass Communication Educator 56/3, Autumn 2001]".

Bem. Tratando da questão da separação do Jornalismo da Comunicação Social, a resolução discorre sobre o dilema do estudante de Jornalismo - a aceitação do espírito crítico e marxista, negando a profissão como ela é, ou se voltar completamente à prática (eliminando a praxiologia buscada) e ignorar a evolução dos estudos de Jornalismo, sua deontologia, ética, história, até mesmo a paixão que sempre envolveu a profissão.

Este blogueiro aceita esses argumentos como verdadeiros - a relação (quase) estritamente mercadológica das relações públicas e da publicidade se entrelaça com os valores peculiares e delicados da profissão jornalística, e isso é extremamente prejudicial. Claro que esse desprendimento do mercado não ocorre no Jornalismo praticado no Brasil - mas ao menos durante o curso, numa Faculdade, é isto que deve ser buscado.

Continua.
Leia a resolução na íntegra no Observatório da Imprensa.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Internacional - A situação da mídia na Argentina

Do Estadão:

"Deputados argentinos votam lei de controle da mídia nesta 4ª
Proposta de Cristina implica em restrições aos grupos de mídia e aumenta interferência do governo na imprensa

Ariel Palacios - O Estado de S. Paulo

BUENOS AIRES - Deputados votarão nesta quarta-feira, 16, a polêmica lei de radiodifusão, que implicará em grandes restrições aos atuais grupos de mídia na Argentina, além de aumentar a interferência do governo na liberdade de imprensa".

Do Conversa Afiada:

"Kirchner x Clarín: Argentina resolveu enfrentar o PiG(*) [...] Para Dênis de Moraes, que é autor do livro “A Batalha da Mídia – Governos Progressistas e Políticas de Comunicação na América Latina”, essa legislação coloca em confronto o grupo Clarín, mais poderoso conglomerado de mídia da Argentina, e o governo federal. “O objetivo do Clárin é desestabilizar os Kirchner e fazer com que volte ao poder um grupo de centro-direita”, diz".

Questão muito interessante, e recheada de discussões.

A primeira delas, para mim, é a forma parcial, inescrupulosa e desprovida de qualquer ética jornalística que o Estado de São Paulo tratou a informação. Taxando o governo argentino de ditatorial, interventor demais, e que tenta "ampliar seu poder e tentar emplacar uma nova candidatura Kirchner em 2011". Um grupo de mídia não pode - ou melhor, não DEVE - se omitir totalmente dos padrões jornalísticos da ética. Entretanto, isso parece possuir cada vez menos sentido no país, em convergência ao atendimento dos interesses mercadológicos das grandes empresas.

Segundo, o projeto ousado do governo argentino. Sim, antes de qualquer coisa, ousado. Entre as medidas, o panorama geral da imprensa argentina seria transformado: as licenças seriam equilibradamente distribuídas entre empresas privadas, públicas, e não governamentais sem fins lucrativos; há estabelecimento de limites geográficos para cada empresa; além de outras regulamentações no setor de radiodifusão.


Arte: AE. Fonte.

É complicadíssimo afirmar o que realmente motiva o governo do país vizinho: os interesses comerciais supostamente existentes entre a Casa Rosada e o setor de telefonia, que sai forte do projeto, ou o real interesse em desarmar um monopólio de comunicação muito parecido com o brasileiro - três ou quatro famílias controlando todas as maiores emissoras de informação, em todos os veículos.

Uma medida parecida no Brasil não parece sequer próxima: o governo Lula, que possivelmente teria apoio para medidas desta espécie nem chegou a tocar no assunto (salvo a ConfeCom que se dará no ano próximo - mas não podemos nem supor seus resultados).

Esperamos o desenlace.

Leia mais no próprio Estadão, e no Observatório da Imprensa.