terça-feira, 2 de junho de 2009

Política - Terceiro mandato? Hum?

Do blog Brasília, eu vi:

Por Leandro Fortes

A imprensa brasileira não vai descansar enquanto não arrancar do presidente Lula, ou de algum ministro de Estado, uma declaração favorável ao terceiro mandato. A insistência com que a mídia tem tratado do tema, em ondas ciclotímicas cada vez mais curtas, revela aquele tipo de interesse que nada tem a ver com os fatos ou, no limite, com demandas jornalísticas. Trata-se de uma campanha infernal para colar na imagem de Lula a pecha de “ditador chavista” às vésperas de um ano eleitoral, como se fosse possível, a essa altura do campeonato, estabelecer semelhanças ideológicas e de ação governamental entre o presidente brasileiro e seu colega, Hugo Chávez, da Venezuela. Há mais de dois anos, escrevi uma matéria na CartaCapital (“Eterno factóide”) a respeito do assunto, quando a onda do terceiro mandato tinha como objetivo contaminar as bases eleitorais do governo, com vistas às eleições municipais de 2008, quando ainda rescendiam brasas sobre os escombros do chamado “mensalão”. Lá, pelas tantas, escrevi:

“O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de ter sido beneficiado com a manobra da reeleição, colocada em prática via mudança da Constituição, foi um dos avalistas internacionais do terceiro mandato de Alberto Fujimori, do Peru. Tanto, e de tal forma, que Fujimori, atualmente às vésperas de ser julgado por crime de corrupção, tráfico de armas e genocídio pela Justiça peruana, arrolou FHC como testemunha”.

Incrível, né? Fernando Henrique Cardoso alterou a Constituição Federal, à custa de um escândalo de compra de votos no Congresso Nacional, para emendar um segundo mandato, com apoio irrestrito da mídia nacional. Em outro front, dava apoio político e diplomático a Fujimori, conhecido bandoleiro internacional, dado a censurar jornalistas e assassinar opositores, para que “El Chino” conseguisse um terceiro mandato no Peru. Sobre o que estamos falando mesmo? Ah, sobre o terceiro mandato, idéia rejeitada, sistematicamente, pelo supostamente (vocábulo adorado dos jornais, nos últimos tempos) principal interessado, a saber, o presidente Lula.

Clique
aqui para ler o texto completo.

O terceiro mandato é inconstitucional. Não está previsto na Legislação brasileira. Porém, o segundo mandato também não era. Até FHC mudar a Constituição e adaptá-la, à época, aos seus casos. Eu, e ninguém mais no Brasil, lembra da imprensa bombardeá-lo com perguntas inúteis e sem sentido, como fazem com Lula. FHC não foi autoritário, chavista, revolucionário. Lula é? Claro que não.

Em tempo, Franklin Roosevelt, presidente dos EUA na época da crise de 1929, foi presidente por 4 mandatos. Foi eleito em 1932, 1936, 1940 e 1944 - todos estes cumpridos depois de Roosevelt contrair poliomielite.

Em ordem, sentados: Winston Churchill, Franklin Roosevelt e Joseph Stalin, na Conferência de Yalta. 4 mandatos de Roosevelt, e só 4, devido à debilitada saúde.

Esse é só um exemplo, ilustrando que o terceiro mandato não é uma bizarrice digna dos comunismos mal sucedidos de sempre. Claro que eu não sou a favor de Lula continuar na presidência pelos próximos anos. Mas não hesitaria em refletir sensivelmente sobre isso defronte à candidatura de José Serra, FHC, Michel Temer, José Sarney, ou qualquer outro dinossauro da nossa fraca política.

sábado, 30 de maio de 2009

Cultural - Fernando Pessoa(s).

"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena."


Sim, tudo vale a pena. Principalmente para os poetas, que brincam com as palavras.

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

Essas palavras provem do, talvez, maior poeta de língua portuguesa que já passou pelo nosso mundo: Fernando Pessoa.


Fernando Pessoa na Baixa lisboeta.

Pessoa nasceu em 1888, em Lisboa. Nunca foi casado com alguém que não a literatura, desde os primórdios da adolescência já escrevia poemas de qualidade. Mas contar a história dele é contar a história de várias outras pessoas. Detentor de uma imaginação além da comum, Pessoa criou e conviveu com heterônimos, portadores de personalidade própria. Para ele(s), apenas um ser humano não seria suficiente para a capacidade total de expressão. Esta, atingida quase que completamente pelo poeta português. Mas bem, ele pode falar melhor do que eu:

"Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser."

"Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração."


Para finalizar o Cultural desta semana, a síntese de Pessoa:

"Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!"



Para ler e ver mais de Pessoa, clique aqui e aqui.


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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Operação Satiagraha - parte III

A Satiagraha voltou, mais uma vez, às páginas dos jornais:

Da Folha Online: "Juiz manda abrir novo inquérito para investigar ligações de Protógenes"
Do Estadão: "Juiz manda abrir novo inquérito da Operação Satiagraha"

Protógenes volta às manchetes do país.

As duas notícias se resumem assim: o juiz da 7ª Vara Federal, Ali Mazloum, abriu uma ação penal contra Protógenes para investigar ligações telefônicas do mesmo para o juiz Fausto de Sanctis, para o procurar Rodrigo de Grandis e para o empresário Luiz Roberto Demarco, da Nexxy Capital. Além disso, segundo a reportagem do Estadão, houve contatos entre o delegado e a empresa PHA Comunicação, de Paulo Henrique Amorim.

Os argumentos são um tanto quanto inconsistentes. O contato entre o delegado Protógenes e os responsáveis pela operação no sistema judiciário é obvio. Claro. Evidentemente claro. Nisso, não há nenhuma quebra de "lisura" afirmada pelo juiz Ali Mazloum ao abrir o inquérito. As pessoas envolvidas na Operação deveriam se comunicar, naturalmente. Ponto.
O problema aqui é a comunicação entre Protógenes e Luiz Roberto Demarco.

Luiz Roberto Demarco é empresário, adversário (para não dizer inimigo) de Daniel Dantas. Ao contrário deste, Demarco não possui, pelo menos não aparenta possuir, pendências judiciais ou criminosas. Se apresentasse, certamente a imprensa pró Dantas já teria divulgado exaustivamente. Porém, eu e você sabemos, leitor, que o mundo dos negócios não é lá muito justo, tampouco suave com os seus participantes. Qualquer empresário poderoso poderia vazar informações (falsas, inclusive) para "queimar" seu concorrente. E isso, aqui, deve ser sim motivo de investigação. Além disso, há o contato com Paulo Henrique Amorim, influente jornalista na frente da Internet, defensor assumido de Protógenes e crítico ferrenho da grande imprensa. Eu o vejo como comunista quase ortodoxo, que faz seguidores marxistas ortodoxos (ou intransigentes, tanto faz).

A questão é: esse contato deve sim ser investigado. O problema é confundi-lo com a criminalidade de Dantas e seus "amigos", comprovada judicialmente (aliás, Dantas foi condenado a 10 anos de prisão). Aparentemente, a investida do juiz Ali Mazloum tem um viés pró Dantas. E isso, cada vez mais, e cada dia mais rapidamente, mancha por completo a credibilidade do Judiciário.

Leia mais no blog do Nassif.

Entenda a Satiagraha aqui e aqui.

terça-feira, 26 de maio de 2009

O Prazer de Ler Saramago

Mayores
Maio 22, 2009 by José Saramago

Em português diríamos pessoas de idade. Num caso e no outro trata-se de eufemismos para fugir à aborrecida palavra “velhos”, que podendo e devendo ser tomada como uma afirmação vital (“Vivi e estou vivo”), é, com demasiada frequência, lançada à cara do idoso como uma espécie de desqualificação moral. E, contudo, pelo menos no meu país, usava-se (usa-se ainda?) uma resposta definitiva, fulminante, dessas que tapam a boca ao interlocutor: “Velhos são os trapos”, respondiam os velhos do meu tempo a quem se atrevesse a chamar-lhes velhos. E continuavam com o seu trabalho, sem dar mais atenção às vozes do mundo. Velhos seriam, claro, mas não inúteis, não incapazes de meter a sovela no lugar certo do sapato ou de guiar a relha do arado com que andasse lavrando. A vida tinha uma coisa má: era dura. E tinha uma coisa boa: era simples.

Hoje continua a ser dura, mas perdeu a simplicidade. Talvez tenha sido esta percepção, formulada assim ou doutra maneira, que fez nascer a ideia de criar uma universidade para pessoas de idade em Castilla-La Mancha, essa que precisamente se chama Universidad para Mayores e de que tenho a honra de ser patrono. Pessoas a quem a idade obrigou a deixar o seu trabalho, que fazer com elas? Outras em quem a idade fez nascer curiosidades que até então não se haviam experimentado, que fazer com elas? A resposta não tardou: criar uma universidade para as gerações de cabelos brancos e rugas na cara., um lugar onde pudessem estudar e descobrir mundos do conhecimento ocultos ou mal sabidos. Cada uma dessas pessoas, cada uma dessas mulheres, cada um desses homens, pode dizer quando abre um livro ou escreve a resposta a um questionário: “Não me rendi”. Nesse momento uma aura de juventude rediviva perpassa-lhes no rosto, em espírito é como se estivessem sentados ao lado dos netos, ou foram eles que se vieram sentar ao lado dos seus maiores. O conhecimento une cada um consigo mesmo e todos com todos.

Qualquer idade é boa para aprender. Muito do que sei aprendi-o já na idade madura e hoje, com 86 anos, continuo a aprender com o mesmo apetite. Não frequento a Universidade para Mayores Castilla-La Mancha (lá irei um dia), mas partilho a alegria (diria mesmo a felicidade) dos que lá estudam, esses a quem me dirijo com estas palavras simples: Queridos Colegas.

(O Caderno de Saramago é o blog do maior autor português vivo, e um dos maiores que já nos brindaram com a maravilha de uma das línguas mais belas do mundo).

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Política - Internacional

Duas manchetes do Estadão:


"ROMA - O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi afirmou em entrevista à rede CNN que nunca cometeu uma gafe e que não gosta de seu cargo nos últimos tempos. Conhecido pelos deslizes que comete em declarações, o premiê culpou a imprensa pela fama. "Nunca cometi qualquer gafe, nenhuma, cada uma delas foi inventada pelos jornais", afirmou."
Silvio Berlusconi (No Brasil, FHC).

Silvio Berlusconi, o dono da Itália, é o FHC daquelas bandas. Arrogante, hipócrita, pseudo amado por todos, direitista quase ortodoxo. Iguaizinhos. A diferença é, talvez, que a imprensa italiana não lamba os seus pés como a Globo (sim, a quase única imprensa brasileira) faz com FHC. Ele tem uma aprovação de mais de 60% dos italianos, mas a população italiana tem uma queda por direitistas assim. Assim como a classe média correta brasileira, que vê no PSDB a salvação dos problemas.

Só para lembrar, reveja algumas gafes recentes de Berlusconi:
"Berlusconi pediu para 'apalpar' voluntária após terremoto"
"Após gafe, Berlusconi é acusado de minimizar o estupro"

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"Obama pede ação mundial contra teste nuclear norte-coreano"

"WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta segunda-feira, 25, em breves declarações na Casa Branca, que a comunidade internacional deve agir em resposta ao teste nuclear realizado pela Coreia do Norte. Obama ainda qualificou o ocorrido como "irresponsável" e uma forte "violação do direito internacional". "

Intransigência? Ideário político? Anseio de afirmar-se na comunidade internacional? Não me vem na cabeça motivos concretos para a Coreia do Norte ser um país tão teimoso. Desde sempre.

Agora, Obama e os outros líderes (também o Conselho de Segurança da ONU) deixam a diplomacia de lado e realizam duras repreensões ao país, que sabia que à tais ações se dariam tais consequências. O problema aqui, é que uma guerra, por ora ideológica, porém com algum indício de tornar-se física, poderia acabar com o mundo, comigo, com você leitor, e com este blog. E isto é um problema muito sério.

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O brasileiro Hélio Castroneves, vencedor pela terceira vez das 500 milhas de Indianápolis, na Fórmula Indy, evento de automobilismo mais importante dos EUA. Depois de vencer a justiça americana no início do ano, Castroneves torna-se o brasileiro mais vezes vencedor da prova. Mais um exemplo de superação.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Cultural - A Metamorfose, Franz Kafka (resenha)

Você encontra outras resenhas literárias minhas lá no: http://www.bibliotecavertical.blogspot.com.

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“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.


O início fabuloso de A Metamorfose, de Franz Kafka, é imortalizado na história por causar horror e fascínio nas pessoas, simultaneamente. O romance se tornou um clássico germânico do último século, porém permanece com uma filosofia viva e atual até os dias atuais. A falta de emoção de Kafka em vida real foi contrariada nos seus escritos, e em A Metamorfose, apesar das peculiaridades autobiográficas, Kafka retrata o homem moderno do início do século XX com um talento invejável.

A história de A Metamorfose se passa na Europa dos anos 1910, da Belle Époque, que de bela, para gente comum como Gregor Samsa, não tinha nada. Gregor era caixeiro-viajante, e a profissão, para ele, preenchia toda sua vida. Isto porque ele trabalhava não só por si próprio, mas pelo pai, inválido e detentor de uma dívida enorme a qual Gregor procura sanar, pela mãe, velha, asmática e incapaz, e pela ingênua irmã. Toda a família depende do trabalho de Gregor para sobreviver, por isso confiavam nele, apoiavam-no. Estranhamente, até mais do que isso: parasitavam-no, tornando-o escravo do trabalho. Até o dia que ele acordou transformado num inseto. A partir dessa metamorfose física, a vida da família sofre um abalo enorme. O pai deve voltar a trabalhar, a casa deve ser disponibilizada a fim de receber hóspedes, até mesmo a irmã tem obrigação de arranjar um emprego. Mas mais importante do que isso, as relações intrafamiliares sofrem alterações significativas. Para o pai, Gregor passa a ser um “peso morto”, imprestável. Para a mãe, objeto de repulsa. Para a irmã, amorosa mesmo depois da transformação, também passa a ser um empecilho. Agora, ele era o parasita. A metamorfose física de Gregor originou uma metamorfose de valores na família, inclusive para o próprio Gregor. Este que aceita sua posição de inseto, só lamenta pelo fato de não poder mais trabalhar e suportar sua família. Com o passar do tempo, Gregor cai numa solidão sem volta, influenciado pelo cada vez mais evidente desprezo das pessoas pela sua forma, e morre de maneira reflexiva, pensando no mundo que o consumiu e que desejou seu fim. Depois da morte solitária de Gregor, a família Samsa desponta para a vida, levantando do seu mormaço casual.

Gregor Samsa, depois de transformado, não se pergunta o porquê daquilo tudo. Talvez o próprio Gregor gostaria de uma fuga da sua vidinha, ou ainda isso aconteceu porque sua vida já havia sido desperdiçada. Isso é uma questão filosófica muito profunda, que não temos como objetivo esclarecer. Porém, é um belo objeto de reflexão.

Kafka evidencia no jovem caixeiro viajante as condições e as ideias que perpassavam o homem comum e trabalhador do início do século XX. A coisificação (Marx chamara isso de fetichização) do trabalho, a intransigência dos empregadores, e a rotina mais do que fixa dos empregados são exemplos. Gregor praticamente abdicara da sua vida particular para sustentar a família, que não via nisso nada desfavorável à pessoa de Gregor. E aqui está a espinha dorsal da filosofia kafkiana: o isolamento do homem se dá pelo conjunto da sociedade e da família, conjunto este que sufoca e afasta a pessoalidade das pessoas do seu âmbito. Isso fica muito claro quando analisamos a biografia do autor. Marcado pela influência de sua estirpe, Kafka descreve as relações que o atormentaram na vida real em uma história aparentemente fictícia, mas que, resguardados os seus aspectos surrealistas, poderia ser totalmente verdadeira. Como, de fato, foi para muitos Gregors Samsas, que não se viram transformados em insetos fisicamente, mas muitas vezes se sentiram esmagados como um pela sociedade voraz que os cercava.

A metamorfose de Gregor Samsa pode ser abordada sob várias vertentes. A mais curiosa é a de que o personagem não deve ser tratado como vítima, mas como vilão. A sua postura de carregar a família nas costas anterior à metamorfose ajudava-a financeiramente, mas inibia seu desenvolvimento, talvez devido à acomodação. Então, a saída de Gregor desse campo teria sido benéfica sob o ponto de vista familiar, atuando como um reequilíbrio nessas relações, já não ligadas ao personagem com laços de dependência.
Adaptação de Peter Kuper.
Kafka nos brinda com sua obra literária. Ao mesmo tempo particularista, por conter vários aspectos auto-biográficos, ela é universalista na medida que trata das angústias e de obstáculos encarados por homens comuns. A complexidade desta obra deixa espaço para muitas interpretações diferentes. Diferentes, não corretas ou incorretas. A filosofia kafkiana ainda guarda alguns de seus segredos. Por isso mesmo, ela se trata de um vasto campo de estudo.
Por fim, dezoito dos maiores escritores vivos do Brasil, a convite do caderno Mais! da Folha de São Paulo, reescreveram o início mitológico de A Metamorfose. Transcrevemos os escritos de dois autores que participaram do desafio:
Kafka em Curitiba – Cristovão Tezza“Quando K. Pietoski acordou aquela manhã gelada, depois de um sonho esquisito, percebeu – primeiro a ausência da mão, depois a dureza na alma -, percebeu que estava transformado em alguma coisa desagradável que lembrava um inseto. Não exatamente um choque, porque tudo se transformara com o corpo, até a memória – mas uma curta aflição, quase uma apenas pergunta: se conseguisse se erguer, alguém descobriria?”Memorial de sonhos intranqüilos – Moacyr Scliar
“Estava clareando o dia, e os sonhos mostravam-se cada vez mais intranqüilos. Daqui a pouco Gregor Samsa vai acordar, diziam, e quem sabe o que lhe acontecerá então? Não, ele não deve despertar, ele deve ficar entre nós, aqui está seguro, aqui nenhum perigo o ameaça – mas como faremos para retê-lo, para impedir que abra os olhos? É tênue a matéria de que somos feitos, lamentavam-se os sonhos, é fraco o nosso poder, sobretudo por causa de nossa intranqüilidade, esta intranqüilidade que assusta o pobre Gregor Samsa, que o expulsa para o limiar da vigília onde ele fica, indeciso entre as sombrias visões da noite e a enigmática realidade com que em breve se verá confrontado. Seria bom se pudessem convocar uma assembléia de sonhos, intranqüilos ou não; se pudessem discutir em profundidade as noites de Gregor Samsa e também seus dias; se pudessem estabelecer uma agenda de negociações, uma estratégia de ação, um programa de metas. Seria bom se constituíssem um cartel de sonhos, ou um consórcio de sonhos, ou uma holding de sonhos. Mas nem tinham tempo para isto, nem sabiam como fazê-lo. Havia uma outra possibilidade: e se contassem uma história a Gregor Samsa? Uma história bem narrada, ainda que impressionante? Uma história que o convencesse de que não há nenhuma diferença entre sonho e realidade? Uma história que o mantivesse adormecido até que a felicidade reinasse soberana sobre a terra, ou alternativamente, até o Dia do Juízo? Os intranqüilos sonhos não sabiam, contudo, como contar essa história. Havia quem pudesse fazê-lo, alguém que conheciam bem: Franz Kafka. Mas Franz Kafka estava dormindo. Quando acordasse seria tarde demais.”
(Decidi antecipar o cultural da semana, devido a provável falta de tempo no fim de semana. Divirtam-se.)